segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Pesquisa Seta: os números do segundo turno reacendem o debate sobre a credibilidade das pesquisas no RN

 


O que diz a recente pesquisa do Instituto Seta fala mais sobre suas posições e convicções do que sobre a realidade das urnas?

A pergunta é provocativa, mas necessária diante da diferença entre as estimativas divulgadas antes do primeiro turno e o resultado efetivamente apurado.

A primeira pesquisa do Instituto Seta para o segundo turno das eleições no Rio Grande do Norte aponta Allyson Bezerra com 43,5% das intenções de voto, contra 32,4% de Cadu de Lula. Nos votos válidos, a diferença seria de 57,2% a 42,8%, respectivamente.

Na disputa presidencial, o levantamento apresenta Lula com 51,7%, contra 34,9% de Flávio Bolsonaro. Considerando apenas os votos válidos, o presidente chega a 59,6%, percentual muito próximo dos 59,75% registrados no primeiro turno, conforme os números apresentados.

Mas é na disputa estadual que a pesquisa merece uma análise mais cuidadosa.

Os números sugerem uma possível migração de parte expressiva dos eleitores de Álvaro Dias para Allyson Bezerra, enquanto uma parcela menor teria optado por Cadu de Lula. Essa, porém, é uma interpretação dos dados, e não uma conclusão definitiva sobre o comportamento individual dos eleitores.

Quando a pesquisa encontra a realidade das urnas

O principal ponto de questionamento está no histórico recente do próprio Instituto Seta.

Na última pesquisa divulgada pelo instituto antes do primeiro turno, Allyson Bezerra aparecia com 46,2% dos votos válidos, enquanto Cadu de Lula registrava 27,6%.

O resultado oficial das urnas, entretanto, foi bastante diferente: Allyson obteve 36,9%, e Cadu chegou a 36,2%.

A diferença entre os dois candidatos, que na pesquisa era de 18,6 pontos percentuais, terminou o primeiro turno em apenas 0,7 ponto percentual.

Não se trata de ignorar que pesquisas são retratos de um momento, sujeitos a oscilações, margens de erro e mudanças no comportamento do eleitorado. Também não se pode afirmar, apenas com base nessa diferença, que houve intenção de favorecer determinado candidato.

O que cabe questionar, jornalisticamente, é por que a estimativa divulgada pelo instituto se distanciou tanto do resultado oficial e quais fatores podem explicar essa discrepância.

A cautela que os números exigem

Agora, com o segundo turno em andamento, a Seta volta a apresentar Allyson Bezerra com uma vantagem considerável sobre Cadu de Lula.

O levantamento merece ser conhecido e analisado, mas não pode ser tratado como se fosse uma antecipação do resultado das urnas. O desempenho anterior do instituto recomenda cautela, especialmente diante da diferença entre os percentuais projetados e os votos efetivamente recebidos pelos candidatos no primeiro turno.

A questão central não é simplesmente gostar ou não dos números apresentados.

É cobrar transparência sobre a metodologia, o tamanho da amostra, as datas das entrevistas, a margem de erro, o nível de confiança e o registro eleitoral da pesquisa.

Também é legítimo examinar se existe consistência entre as estimativas divulgadas ao longo da campanha e os resultados oficiais, sem transformar divergências estatísticas, por si só, em prova de favorecimento político.

O eleitor não pode ser tratado como detalhe

A pesquisa eleitoral é um instrumento importante para compreender o cenário político. Mas ela não substitui o voto, não determina o resultado e tampouco encerra o debate sobre a força real de cada candidatura.

Quando um instituto apresenta uma diferença expressiva entre dois candidatos e as urnas revelam uma disputa praticamente empatada, a cobrança por explicações é parte do exercício do jornalismo e da fiscalização pública.

No fim das contas, a pergunta que permanece é simples: até que ponto os números divulgados conseguem representar o sentimento das ruas e a realidade do eleitorado?

A resposta não deve vir de preferências políticas, desconfianças sem provas ou narrativas de campanha. Deve vir da análise dos dados, da transparência metodológica e da comparação responsável entre pesquisas e resultados oficiais.

Porque, na democracia, pesquisa é estimativa. A urna é o registro do voto.

Enfim

O levantamento da recente pesquisa SETA  ouviu 1.500 eleitores entre 7 e 10 de outubro, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais.