quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Luiz Fux defende proibição das bets no Brasil e aponta apostas online como problema de saúde pública e econômico

 


O debate sobre a permanência das plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets, no Brasil ganhou um novo capítulo no Supremo Tribunal Federal (STF). Nesta terça-feira (3), o ministro Luiz Fux defendeu publicamente a proibição desse tipo de atividade no País, argumentando que os prejuízos provocados pelas apostas ultrapassam o campo esportivo e representam riscos à saúde pública e à economia das famílias brasileiras.

A manifestação ocorreu durante uma audiência pública no STF, convocada para discutir a legalidade das apostas de quota fixa e os impactos da atividade na sociedade. Para Fux, o crescimento das plataformas digitais de apostas exige uma reflexão sobre os efeitos do jogo compulsivo, o endividamento e as consequências sociais provocadas pela dependência.

O ministro destacou especialmente a ludopatia, transtorno relacionado à dificuldade de controlar o impulso de apostar, mesmo quando a prática provoca prejuízos financeiros, familiares e pessoais.

Na avaliação apresentada por Fux, o problema deixou de ser uma questão restrita ao entretenimento ou ao mercado esportivo e passou a exigir atenção das autoridades públicas.

Fux rebate críticas e explica posição

Durante a audiência, o ministro também respondeu às críticas sobre a composição dos participantes do encontro, já que representantes de clubes de futebol, entidades esportivas e setores ligados ao mercado de apostas demonstraram preocupação com a proibição.

Fux lembrou que, em novembro de 2024, o STF já havia realizado uma audiência pública para ouvir instituições contrárias às apostas online. Na ocasião, foram apresentadas preocupações relacionadas ao vício em jogos, ao endividamento das famílias e aos danos sociais.

Entre as entidades anteriormente ouvidas estavam a Associação Brasileira de Psiquiatria, o Instituto Alana e o Grupo Mulheres do Brasil.

O magistrado sustentou que sua posição foi construída a partir das informações reunidas nesses debates e afirmou que pretende defender expressamente a proibição das bets no julgamento das ações que questionam a medida do governo federal.

Proibição divide governo, futebol e setor econômico

A discussão ganhou força depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou a Medida Provisória (MP) 1.394/2026, em setembro, estabelecendo a proibição da exploração das apostas de quota fixa no Brasil e o encerramento das autorizações concedidas às empresas do setor.

A medida, entretanto, enfrenta resistência de associações ligadas às apostas e de representantes do futebol. Clubes e entidades esportivas argumentam que a proibição poderá provocar perdas financeiras, redução de patrocínios, desemprego e fortalecimento do mercado clandestino.

Do outro lado, o governo defende que a retirada dessas plataformas é necessária diante dos prejuízos financeiros e sociais provocados pelas apostas, especialmente entre famílias de menor renda.

A audiência pública realizada no STF colocou essas posições em confronto e reuniu representantes do governo, do esporte, do comércio e do próprio mercado de apostas.

Julgamento ainda depende de decisão do Supremo

Outro ponto importante envolve o julgamento sobre a validade da legislação de 1941 que criminaliza a exploração de jogos de azar no Brasil.

Em agosto de 2026, Luiz Fux apresentou voto favorável à manutenção da criminalização prevista na Lei das Contravenções Penais. Entretanto, o ministro Flávio Dino pediu vista do processo, interrompendo a análise.

Dino defendeu que a discussão também abrangesse as apostas digitais, permitindo que o Supremo examinasse o tema de maneira mais ampla.

Fux afirmou que gostaria de complementar seu voto para incluir expressamente sua posição favorável à proibição das bets.

O que está em jogo?

A discussão vai muito além de permitir ou proibir apostas esportivas. Envolve saúde pública, proteção dos consumidores, endividamento familiar, liberdade econômica, segurança jurídica e os recursos financeiros que movimentam o futebol brasileiro.

É importante destacar que a manifestação de Luiz Fux representa a posição individual do ministro, e não uma decisão definitiva do STF. As ações contra a medida provisória ainda precisam ser examinadas pela Corte.

O desfecho poderá definir os rumos de um mercado que movimenta cifras bilionárias no País e que, ao mesmo tempo, está no centro de preocupações sobre o crescimento do vício em apostas e o comprometimento da renda de milhares de brasileiros.