quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Conflitos fundiários: Macau busca equilíbrio entre propriedade, posse e proteção das famílias

 


Audiência pública reúne Câmara, Prefeitura, autoridades e famílias para discutir conflitos fundiários e buscar soluções que respeitem a legislação e a realidade social das comunidades

Uma audiência pública realizada nesta quinta-feira (24), no Porto de Ama, colocou em discussão uma questão que exige equilíbrio entre responsabilidade jurídica, diálogo institucional e justiça social: os conflitos fundiários que envolvem famílias de comunidades tradicionais de Macau.

Participaram do encontro vereadores, representantes da Prefeitura, equipes técnicas e jurídicas do município, a prefeita Flávia Veras, o comandante da 1ª CIPM de Macau, MJ Montenegro e autoridades de nossa comunidade que se preocupam com o dilema social .

Veja bem


As discussões envolveram famílias das comunidades de Conceição, Canto do Papagaio, Terra de Deus, Nova Descoberta, Maxixe e regiões vizinhas.

Posse e propriedade: não são a mesma coisa

Em uma discussão fundiária, uma diferença precisa estar muito clara: posse não é sinônimo de propriedade.

De maneira simplificada, propriedade é o direito juridicamente reconhecido sobre determinado imóvel, normalmente relacionado ao título e ao respectivo registro imobiliário. O proprietário possui, dentro dos limites estabelecidos pela legislação, direitos sobre aquele bem.

Já a posse está relacionada ao exercício de fato sobre o imóvel. Uma pessoa pode morar, trabalhar e utilizar determinada área durante anos e exercer a posse daquele território sem necessariamente ser a proprietária registrada.

É justamente nessa diferença que muitos conflitos fundiários se tornam complexos.

Uma família pode estar na posse de uma área há muitos anos, enquanto outra pessoa ou entidade pode apresentar documentos que indiquem a propriedade. Uma situação não elimina automaticamente a outra. Cada caso precisa ser analisado de acordo com suas circunstâncias e com a legislação aplicável.

Por isso


Dizer simplesmente que determinada família "é dona" da terra, sem a documentação correspondente, pode ser juridicamente incorreto. Da mesma forma, afirmar que uma família "não tem nenhum direito" apenas porque não possui o registro da propriedade também pode simplificar excessivamente uma situação que precisa ser examinada juridicamente.

O conflito não pode ser reduzido a um pedaço de terra

É nesse ponto que entra a dimensão social da discussão.

Por trás de uma situação de posse existem, muitas vezes, famílias que construíram suas casas, criaram seus filhos, desenvolveram atividades econômicas e estabeleceram vínculos comunitários ao longo de muitos anos.

Isso não transforma automaticamente a posse em propriedade.

Mas significa que qualquer medida de desocupação ou retirada precisa considerar também as consequências sociais e humanas envolvidas, observando os procedimentos e garantias previstos em lei.

A discussão, portanto, não deve colocar propriedade contra dignidade humana.

Este é o ponto central

O desafio é justamente encontrar uma solução juridicamente adequada que reconheça os direitos de quem possui legitimamente a propriedade e, ao mesmo tempo, considere a situação das famílias que exercem a posse e podem estar em condição de vulnerabilidade.

A lei precisa ser respeitada — e o diálogo também



É fundamental deixar claro que uma audiência pública não substitui o Poder Judiciário nem pode, por si só, alterar direitos de propriedade ou impedir o cumprimento de uma decisão judicial.

O papel do poder público municipal é atuar dentro dos limites de sua competência, contribuindo para o diálogo, levantando informações, oferecendo apoio técnico e social quando cabível e buscando alternativas legalmente possíveis.

Dependendo de cada situação, podem existir caminhos como negociação, mediação, regularização fundiária, reassentamento ou outras medidas previstas no ordenamento jurídico.

Mas cada caso é um caso.

Não existe uma solução única para todos os conflitos fundiários.

Justiça social também é buscar uma solução responsável

A audiência realizada em Macau ganha importância justamente por colocar diferentes atores na mesma mesa.

Legislativo, Executivo, autoridades e representantes das comunidades podem contribuir para que o debate deixe de ser apenas uma disputa política e passe a ser tratado como uma questão institucional.

O proprietário tem direitos. O possuidor também pode ter direitos que precisam ser analisados. E as famílias envolvidas têm uma realidade social que não pode ser ignorada.

O ponto central é que nenhum desses aspectos deve ser analisado isoladamente: A propriedade deve ser respeitada. A posse deve ser juridicamente examinada. As decisões judiciais, quando existentes, devem ser cumpridas. E a dignidade das pessoas atingidas precisa fazer parte da construção de qualquer solução.

Porque



Quando uma disputa envolve o lugar onde uma família vive há décadas, não estamos falando apenas de terra. Estamos falando também de moradia, sobrevivência, história e pertencimento.

O desafio de Macau será transformar o diálogo iniciado nesta audiência em encaminhamentos concretos, sem atropelar a lei, mas também sem ignorar a realidade de quem está diretamente envolvido no conflito.