A eleição proporcional tem uma lógica
que nem sempre combina com a política tradicional: os candidatos que
disputam votos também precisam uns dos outros para conquistar mais cadeiras.
Foi justamente esse ponto que o
candidato a deputado federal Dr. Bernardo (PV) colocou na mesa ao defender a
união entre os postulantes da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV
e PCdoB.
“Nós somos parceiros, companheiros de
nominata, e nós dependemos dos votos uns dos outros”, afirmou Dr. Bernardo, em
entrevista ao programa Cenário Político, da TCM de Mossoró. E resumiu a
situação com uma frase que merece atenção: “Nós não somos adversários,
embora sejamos concorrentes.”
A declaração parece óbvia, mas ganha
outro peso diante do ambiente político dentro da própria federação no Rio
Grande do Norte.
O detalhe que chama atenção
Dr. Bernardo não é o primeiro nome
ligado à disputa eleitoral a expor publicamente essa preocupação.
Durante a passagem do presidente Lula
pelo Rio Grande do Norte, a candidata a deputada federal Thábatta Pimenta também
externou uma situação de desconforto relacionada à postura de setores do grupo
petista no Estado.
Quando dois candidatos de uma mesma
federação, em momentos diferentes, chamam atenção para a necessidade de união e
para o comportamento interno do grupo, o fato deixa de ser apenas uma disputa
individual e passa a levantar uma questão política maior.
Existe, de fato, unidade dentro da
Federação Brasil da Esperança no RN ou cada grupo está cuidando do seu próprio
projeto eleitoral?
A matemática não perdoa
Na eleição para deputado federal, não
basta apenas um candidato ter uma votação expressiva. A força da nominata é
determinante para a conquista das cadeiras.
Por isso, candidatos da mesma
federação podem ser concorrentes nas urnas, mas também são aliados
estratégicos na construção do resultado coletivo.
Quanto maior a votação do conjunto,
maior a possibilidade de a federação conquistar cadeiras.
É aí que aparece o paradoxo: o
candidato precisa disputar votos contra seus próprios companheiros, mas não
pode agir como se estivesse disputando contra adversários.
E o PT?
É justamente nesse ponto que surge a
leitura política mais incômoda.
O PT do Rio Grande do Norte, que
historicamente possui uma estrutura partidária consolidada e ocupa um espaço
importante no campo político ligado ao presidente Lula, pode acabar enfrentando
um problema dentro da própria federação se não conseguir harmonizar os
diferentes projetos eleitorais.
Não se trata de dizer que existe uma
ruptura ou uma guerra interna — isso exigiria fatos concretos para ser
afirmado.
Mas há sinais públicos de
insatisfação e cobranças por maior unidade.
E quando candidatos da própria
federação começam a falar abertamente sobre a necessidade de união, é porque
alguma coisa precisa ser ajustada.
Na política, ninguém elege sozinho
A fala de Dr. Bernardo talvez seja
mais do que um pedido de união. Pode ser também um recado político.
Se todos precisam dos votos de todos,
ninguém pode tratar companheiro de nominata como inimigo.
A questão que fica para o eleitor
potiguar é simples:
A Federação Brasil da Esperança
conseguirá transformar PT, PV e PCdoB em um único projeto eleitoral competitivo
ou continuará funcionando como três projetos políticos disputando espaço dentro
da mesma chapa?
Se a segunda opção prevalecer, a
federação poderá descobrir nas urnas que a maior ameaça à conquista de
cadeiras não estava do lado de fora, mas dentro da própria nominata.
E talvez seja exatamente aí que esteja
o maior desafio do PT no RN: entender que, na eleição proporcional, dividir
aliados pode significar diminuir a força de todos.
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