quarta-feira, 27 de maio de 2026

Jumento nordestino: lucro milionário na China ameaça símbolo histórico do semiárido brasileiro

 


O jumento nordestino, símbolo histórico da resistência e da sobrevivência no semiárido, passou a ser tratado apenas como mercadoria em um comércio silencioso e cruel que beneficia mercados internacionais, enquanto deixa poucos ou nenhum retorno sustentável para o Nordeste brasileiro.

No Ceará, animais são vendidos informalmente por valores irrisórios, entre R$ 1 e R$ 10, mas após o processamento da pele e extração de colágeno destinados à indústria chinesa de cosméticos, podem alcançar até R$ 1.500 no exterior. A diferença escancara uma realidade desigual: o lucro milionário fica fora do País, enquanto os criadores locais permanecem sem estrutura, sem políticas de proteção e sem garantia de desenvolvimento econômico.

A atividade também evidencia um grave problema de falta de rastreabilidade e fiscalização. Muitos animais são comercializados em condições precárias, sem controle sanitário adequado, colocando em risco não apenas o bem-estar animal, mas também a credibilidade do agronegócio brasileiro. Em vez de fortalecer o setor, esse tipo de prática cria desgaste internacional e ameaça a imagem de um agro que busca reconhecimento por sustentabilidade e responsabilidade sanitária.

Outro ponto preocupante é o risco real de desaparecimento da espécie. Diferente de outros animais de produção, o jumento possui reprodução lenta: a gestação dura cerca de 12 a 13 meses e normalmente nasce apenas um filhote por vez. Além disso, o animal leva anos para atingir maturidade reprodutiva. Ou seja, a velocidade do abate é muito maior do que a capacidade natural de reposição da espécie.

Os dados apresentados pela organização The Donkey Sanctuary reforçam essa preocupação. Mesmo em condições altamente favoráveis, um rebanho com 200 mil fêmeas levaria mais de 15 anos para produzir 1,2 milhão de peles, enquanto a demanda anual da indústria chinesa ultrapassa 5,9 milhões. Na prática, trata-se de uma exploração insustentável, baseada no esgotamento acelerado da população de jumentos.

A aprovação da Sugestão Legislativa que propõe a proibição do abate de jumentos no Brasil representa um importante debate entre proteção animal, preservação cultural e responsabilidade econômica. Mais do que defender um animal, a discussão levanta um questionamento sobre até que ponto o lucro internacional pode justificar a destruição de um símbolo histórico do Nordeste e a exploração descontrolada de uma espécie sem qualquer planejamento sustentável.