O jumento nordestino, símbolo
histórico da resistência e da sobrevivência no semiárido, passou a ser tratado
apenas como mercadoria em um comércio silencioso e cruel que beneficia mercados
internacionais, enquanto deixa poucos ou nenhum retorno sustentável para o
Nordeste brasileiro.
No Ceará, animais são vendidos
informalmente por valores irrisórios, entre R$ 1 e R$ 10, mas após o
processamento da pele e extração de colágeno destinados à indústria chinesa de
cosméticos, podem alcançar até R$ 1.500 no exterior. A diferença escancara uma
realidade desigual: o lucro milionário fica fora do País, enquanto os criadores
locais permanecem sem estrutura, sem políticas de proteção e sem garantia de
desenvolvimento econômico.
A atividade também evidencia um grave
problema de falta de rastreabilidade e fiscalização. Muitos animais são
comercializados em condições precárias, sem controle sanitário adequado,
colocando em risco não apenas o bem-estar animal, mas também a credibilidade do
agronegócio brasileiro. Em vez de fortalecer o setor, esse tipo de prática cria
desgaste internacional e ameaça a imagem de um agro que busca reconhecimento
por sustentabilidade e responsabilidade sanitária.
Outro ponto preocupante é o risco real
de desaparecimento da espécie. Diferente de outros animais de produção, o
jumento possui reprodução lenta: a gestação dura cerca de 12 a 13 meses e
normalmente nasce apenas um filhote por vez. Além disso, o animal leva anos
para atingir maturidade reprodutiva. Ou seja, a velocidade do abate é muito
maior do que a capacidade natural de reposição da espécie.
Os dados apresentados pela organização
The Donkey Sanctuary reforçam essa preocupação. Mesmo em condições altamente
favoráveis, um rebanho com 200 mil fêmeas levaria mais de 15 anos para produzir
1,2 milhão de peles, enquanto a demanda anual da indústria chinesa ultrapassa
5,9 milhões. Na prática, trata-se de uma exploração insustentável, baseada no
esgotamento acelerado da população de jumentos.
A aprovação da Sugestão Legislativa
que propõe a proibição do abate de jumentos no Brasil representa um importante
debate entre proteção animal, preservação cultural e responsabilidade
econômica. Mais do que defender um animal, a discussão levanta um questionamento
sobre até que ponto o lucro internacional pode justificar a destruição de um
símbolo histórico do Nordeste e a exploração descontrolada de uma espécie sem
qualquer planejamento sustentável.

