A gestão do prefeito Paulinho Freire
volta ao centro de um debate delicado: a prioridade na aplicação de recursos
públicos destinados à cultura.
A Secretaria Municipal de Cultura de
Natal formalizou, por meio de inexigibilidade de licitação, a contratação da
empresa 1912 Produções Artísticas Ltda para a realização de 16 apresentações do
personagem Mução em bairros da capital. O valor total do contrato chama
atenção: R$ 1,04 milhão.
Não se trata de questionar o sucesso
popular do artista ou a relevância do entretenimento nos bairros. O problema é
outro — e mais grave: a mensagem que essa escolha transmite diante da realidade
enfrentada por artistas potiguares.
Relatos recorrentes do setor cultural
apontam atrasos de pagamento que ultrapassam um ano para profissionais que já
prestaram serviço ao município. São músicos, atores, produtores e técnicos que
seguem aguardando o básico: o cumprimento de contratos já executados.
Diante desse cenário, a contratação
milionária ganha outro peso. Para muitos, soa como um desrespeito. Um contraste
difícil de justificar entre discurso e prática.
Um “tapa na cara” do artista local?
É assim que parte da classe artística tem classificado a decisão. E não sem
motivo. Enquanto há promessa de valorização da cultura local, o que se vê na
prática é a priorização de grandes contratos, sem que o passivo com os
profissionais da terra seja resolvido.
A inexigibilidade de licitação, embora
legal em casos específicos, não elimina a necessidade de transparência,
equilíbrio e, sobretudo, sensibilidade na gestão dos recursos públicos.
Valorização seletiva?
A gestão municipal frequentemente reforça o compromisso com a cultura potiguar.
No entanto, episódios como esse levantam um questionamento inevitável: essa
valorização é real ou apenas retórica?
No fim das contas, a política cultural
de uma cidade não se mede apenas pelos eventos que promove, mas pelo respeito
que demonstra com quem constrói a cultura no dia a dia.


