sexta-feira, 17 de abril de 2026

Contratação de Mução por mais de R$ 1 milhão expõe contradições da gestão cultural em Natal

 


A gestão do prefeito Paulinho Freire volta ao centro de um debate delicado: a prioridade na aplicação de recursos públicos destinados à cultura.

A Secretaria Municipal de Cultura de Natal formalizou, por meio de inexigibilidade de licitação, a contratação da empresa 1912 Produções Artísticas Ltda para a realização de 16 apresentações do personagem Mução em bairros da capital. O valor total do contrato chama atenção: R$ 1,04 milhão.

Não se trata de questionar o sucesso popular do artista ou a relevância do entretenimento nos bairros. O problema é outro — e mais grave: a mensagem que essa escolha transmite diante da realidade enfrentada por artistas potiguares.

Relatos recorrentes do setor cultural apontam atrasos de pagamento que ultrapassam um ano para profissionais que já prestaram serviço ao município. São músicos, atores, produtores e técnicos que seguem aguardando o básico: o cumprimento de contratos já executados.

Diante desse cenário, a contratação milionária ganha outro peso. Para muitos, soa como um desrespeito. Um contraste difícil de justificar entre discurso e prática.

Um “tapa na cara” do artista local?

É assim que parte da classe artística tem classificado a decisão. E não sem motivo. Enquanto há promessa de valorização da cultura local, o que se vê na prática é a priorização de grandes contratos, sem que o passivo com os profissionais da terra seja resolvido.

A inexigibilidade de licitação, embora legal em casos específicos, não elimina a necessidade de transparência, equilíbrio e, sobretudo, sensibilidade na gestão dos recursos públicos.

Valorização seletiva?

A gestão municipal frequentemente reforça o compromisso com a cultura potiguar. No entanto, episódios como esse levantam um questionamento inevitável: essa valorização é real ou apenas retórica?

No fim das contas, a política cultural de uma cidade não se mede apenas pelos eventos que promove, mas pelo respeito que demonstra com quem constrói a cultura no dia a dia.