Quando se critica gestores que
priorizam festas em detrimento do bem-estar da população, Serra do Mel se
apresenta como um exemplo concreto dessa inversão de prioridades.
O município, com pouco mais de 13 mil
habitantes, vive um contraste difícil de justificar. Enquanto a população
passou mais de um ano sem acesso a um aparelho de Raio-X na rede pública de
saúde, a Prefeitura destinou milhões de reais para a realização de eventos
festivos. Não se trata de um detalhe administrativo, mas de uma falha grave na
garantia de um serviço básico.
A denúncia partiu do vereador Aécio
Araújo, que expôs uma realidade preocupante: pacientes sendo obrigados a se
deslocar para cidades vizinhas, como Mossoró, para realizar exames simples de
imagem. Isso significa atraso em diagnósticos, comprometimento de tratamentos
e, em muitos casos, sofrimento desnecessário para quem depende exclusivamente
do SUS. Em saúde pública, tempo é fator decisivo — e a ausência de um
equipamento essencial cobra um preço alto da população.
Em paralelo, os números oficiais
revelam outra face da gestão. Dados do Painel Festejos, do Tribunal de Contas
do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN), indicam que a Prefeitura de Serra do
Mel já gastou R$ 4.391.050,00 com festas. O valor, por si só, não seria
problema se áreas essenciais estivessem funcionando de forma adequada. O
questionamento central é a prioridade: como justificar milhões em eventos
enquanto falta um Raio-X para atender a população?
A situação ganhou ainda mais
repercussão durante a tradicional Festa do Caju, quando uma advogada de Mossoró
foi agredida por policiais militares que faziam a segurança do evento. O caso
resultou no afastamento de 10 policiais por determinação do comando da PM,
ampliando o debate sobre planejamento, segurança e responsabilidade na
realização desses festejos.
Não se defende aqui o fim da cultura,
do lazer ou das festas populares. Elas têm seu papel social e econômico. O que
se questiona é a lógica administrativa que coloca shows e eventos à frente da
saúde. Em qualquer gestão pública minimamente responsável, a saúde deveria ser
o primeiro ponto da pauta, não um item secundário.
Serra do Mel expõe um problema
recorrente em muitos municípios: a opção política por ações de maior
visibilidade, enquanto serviços essenciais permanecem precários. Festa passa. O
impacto da falta de assistência em saúde, não.


