O Rio Grande do Norte ostenta uma das
maiores rendas médias do Nordeste. Mas, ao mesmo tempo, carrega o peso de ser o
estado mais desigual da região. A contradição é clara: crescimento econômico
existe, mas não chega ao bolso da maioria dos potiguares.
Segundo a Síntese de Indicadores
Sociais 2024, divulgada pelo IBGE, 43,5% da população do RN viveu em 2023 com
menos de US$ 6,85 por dia, padrão internacional para medir a pobreza. Sem os
programas sociais, esse número saltaria para 50,3%. Na extrema pobreza, com
menos de US$ 2,15 por dia, 6,3% da população estava incluída. Sem a rede de
proteção, seriam 18,6%.
Eis o ponto central: sem políticas
sociais, o caos seria ainda maior. Isso mostra o quanto o estado depende de
medidas emergenciais para evitar que a miséria se escancare ainda mais. Em
Natal, por exemplo, o contraste é gritante: a extrema pobreza cairia de 12,7%
para 4,9% apenas pela presença de programas sociais.
Mas o que explica esse abismo? O
economista Ricardo Valério, superintendente do Corecon-RN, aponta o óbvio que
muitos fingem não ver: o crescimento não gera empregos de qualidade. O PIB do
estado, que avançou só 1,9% ao ano entre 2002 e 2022, é sustentado por setores
como turismo, comércio, serviços e energias renováveis. São áreas importantes,
mas que oferecem vagas temporárias, mal remuneradas e concentradas em poucos
grupos.
O caso da energia é emblemático:
bilhões de reais investidos em parques eólicos e solares que, depois da
instalação, praticamente não geram empregos, e ainda concentram riqueza nas
mãos de grandes investidores.
O discurso oficial costuma vender a
ideia de que o RN está “entrando no futuro” com projetos como hidrogênio verde,
data centers e Porto Verde Industrial. Mas, sem educação e capacitação técnica,
quem realmente vai se beneficiar? A elite de sempre. Para a maioria, continuará
sobrando subemprego e salário baixo.
A verdade é que o Rio Grande do Norte cresce
para poucos e empobrece muitos. A pobreza não é apenas circunstancial: é
estrutural. Não basta atrair megaprojetos e vender manchetes bonitas de bilhões
em investimentos. É preciso mudar o modelo econômico, investir pesado em
educação e formação técnica, e sobretudo, pensar em políticas que coloquem o
povo no centro — e não apenas como espectador de um desenvolvimento que nunca
chega.


