A Prefeitura do Assú decretou situação
de emergência por 180 dias devido à seca que castiga a zona rural do
município, afetando o abastecimento de água e comprometendo a produção
agrícola. O decreto, assinado pelo prefeito Lula Soares (Republicanos),
reconhece a gravidade da queda nos índices de chuvas e a dependência crescente
da Operação Carro-Pipa para que muitas famílias tenham acesso a algo
básico: água.
Até aqui, tudo dentro da realidade
dura do sertão nordestino. Mas há um detalhe que não pode passar despercebido: há
pouco mais de um mês, a mesma prefeitura gastou cerca de R$ 5 milhões com as
atrações do São João. Uma festa grandiosa, com estrutura de show e muito
brilho, que atraiu multidões e gerou manchetes positivas. Passada a folia, a
população agora se depara com o decreto de emergência e com a triste
constatação de que o dinheiro público, mais uma vez, parece ter sido usado sem
o devido equilíbrio entre lazer e prioridade social.
É claro que a cultura popular e as
tradições têm seu valor. O São João movimenta a economia, gera empregos
temporários e reforça a identidade cultural do povo nordestino. Mas não dá para
ignorar o contraste gritante: enquanto milhões foram investidos em dias de
festa, milhares de famílias do campo enfrentam a incerteza da seca, carregando
latas d’água na cabeça e dependendo de carros-pipa para beber, cozinhar e
sobreviver.
Essa situação escancara uma pergunta
incômoda: de que adianta promover o “maior São João da história” se a
população rural segue esquecida, sem políticas estruturantes para enfrentar a
estiagem? O decreto de emergência soa, para muitos, como uma confissão
tardia de que o essencial foi deixado em segundo plano.
O que se espera agora é que a gestão
municipal saiba administrar não apenas a escassez de água, mas também a
escassez de prioridades. Festa é importante, mas dignidade é urgente.


