segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Quando a jaula protege mais que o Estado: a tragédia de Gerson e a inversão de valores que ninguém quer admitir

 


Vivemos tempos em que a lógica se perdeu e a escala de valores virou de cabeça para baixo. No Brasil de hoje, um animal recebe mais atenção, cuidado e proteção do que um jovem que carregava nas costas uma vida inteira de abandono e esquizofrenia. A morte de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, após invadir a jaula de uma leoa no Parque Arruda Câmara (PB), escancara essa ferida aberta que insistimos em cobrir com silêncio.

Gerson não era um “caso isolado”. Era o retrato perfeito do que acontece quando o Estado vira as costas para uma criança desde cedo. Diagnosticado tardiamente, marcado pela extrema pobreza, rejeitado por instituições e pela própria sociedade, acumulou violações, descaso e sofrimento. Enquanto os irmãos foram adotados, ele não foi. Enquanto precisava de acompanhamento, recebeu muros. Enquanto implorava por acolhimento, encontrou grades.

A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que o acompanhou desde os 10 anos, resume com precisão: Gerson foi empurrado para uma vida onde a única sensação de segurança era estar enjaulado. Não por escolha, mas porque o mundo fora da jaula nunca lhe ofereceu nada além de abandono.

E após sua morte?

A leoa passou a ser monitorada, examinada, protegida, tratada com toda a cautela possível. Nenhuma atitude agressiva foi identificada — e dificilmente será abatida. Correto. Um animal não pode ser responsabilizado pela falha humana.

O problema é o contraste. A leoa terá acompanhamento diário, profissionais atentos, protocolos de segurança. 

Gerson não teve nada disso. 

Em 19 anos, não teve cuidado, não teve suporte psicológico, não teve estrutura, não teve lar. Teve apenas o destino traçado pela negligência de um sistema inteiro.

A verdade é dura, mas precisa ser dita:

A morte de Gerson não foi um acidente. Foi o capítulo final de uma vida que já havia sido condenada pelo descaso. Ele é a “crônica de uma morte anunciada” que a sociedade finge não ver.

E no fim, fica a pergunta incômoda:

Como é que um animal recebe mais cuidado em 24 horas do que um jovem brasileiro recebeu em toda a vida?

Até quando vamos aceitar que a jaula protege mais que o Estado?